15 out, 2026 · Correos Express
O diretor-geral da Correos Express antecipa um mercado ainda em expansão, mas a um ritmo mais moderado, e uma aceleração da consolidação do setor. Para o responsável, a diferenciação passará cada vez mais pela tecnologia, previsibilidade e capacidade de dar ao destinatário maior controlo sobre as entregas.
Vida Económica - Como está a evoluir o mercado português do transporte urgente e da distribuição de encomendas?
António Vaz - O mercado português do transporte urgente está a entrar numa nova fase de crescimento, mais exigente, mais regulada e com uma relevância económica cada vez maior. O momento que vivemos atualmente é de transformação, como consequência do novo enquadramento aduaneiro europeu, que introduz dois encargos distintos sobre as importações de comércio eletrónico provenientes de países terceiros. Por um lado, a eliminação da isenção de direitos aduaneiros para envios de valor inferior a 150 euros traduz-se na aplicação de uma taxa de três euros por categoria de artigo incluída no envio. Por outro, será criada uma nova taxa de gestão aduaneira, estimada em cerca de dois euros por artigo, que deverá ser cobrada pelos Estados-Membros, o mais tardar, a partir de 1 de novembro. O efeito combinado destas medidas deverá tornar mais exigente a entrada na União Europeia de produtos adquiridos através de plataformas extracomunitárias, que foi uma fonte de crescimento muito relevante para o setor nos últimos anos.
VE - O crescimento do comércio eletrónico continua a impulsionar a procura de entregas expresso em Portugal?
AV - Sem dúvida. O comércio eletrónico continua a ser um dos principais motores do setor e conserva um potencial relevante de crescimento. Apesar da forte evolução dos últimos anos, Portugal apresenta ainda uma menor penetração das vendas online no conjunto do retalho do que os mercados europeus mais digitalizados. Em Portugal, apenas 61% da população entre os 16 e os 74 anos realizou pelo menos uma compra online em 2025, colocando o país na 30.ª posição neste indicador num total de 38 países europeus analisados. Em contraponto, em média, 75% da população europeia da mesma faixa etária comprou online nesse ano. O crescimento deverá resultar não apenas da entrada de novos consumidores, mas também do aumento da frequência de compra, da expansão para novas categorias e da crescente internacionalização das vendas. Para os operadores logísticos com uma rede integrada em Portugal e Espanha, esta convergência representa uma oportunidade estrutural de crescimento.
VE - Como estão a evoluir os preços dos serviços de transporte expresso num contexto de aumento dos custos de operação?
AV - O setor enfrenta uma pressão estrutural sobre os custos. Energia, combustíveis, salários, instalações, equipamentos e tecnologia representam uma parte crescente da estrutura operacional. Simultaneamente, o mercado exige mais rapidez, mais informação, maior ¬ flexibilidade e investimentos contínuos em sustentabilidade. A prioridade tem de ser a produtividade. Automação, otimização de rotas, maior densidade de entregas, utilização inteligente de dados e redução das tentativas falhadas são os principais instrumentos para absorver parte da pressão e mitigar a necessidade de repercutir integralmente os aumentos nos clientes. Na Correos Express, procuramos estabelecer relações sustentáveis e de longo prazo. Isso significa assegurar preços competitivos, mas também garantir que esses preços permitem manter a qualidade, a fiabilidade e a capacidade de investimento.
Transferência de controlo
VE - Que tendências estão a marcar o setor em Portugal, designadamente ao nível das entregas no próprio dia, pontos de recolha e soluções para última milha?
AV - A grande tendência é a transferência de controlo para o destinatário. O consumidor quer decidir onde, quando e como recebe a encomenda e não adaptar o seu dia à operação do transportador. A entrega ao domicílio continua a ser a opção dominante, mas verifica-se um crescimento progressivo dos lockers e dos pontos de recolha. Estas soluções respondem simultaneamente a três desafios: conveniência para o consumidor, e ciência operacional e redução do impacto ambiental da última milha. Quanto às entregas no próprio dia, continuarão a ser relevantes em determinados segmentos, categorias de produto e grandes áreas urbanas. No entanto, a velocidade extrema não é a prioridade de todos os consumidores. Para a maioria, uma entrega previsível, com uma janela fiável e possibilidade de alteração, é mais valiosa do que uma promessa de rapidez. A próxima batalha competitiva será pelo controlo, pela previsibilidade e pela conveniência oferecidos ao destinatário.
VE - A sustentabilidade está a alterar as decisões das empresas na contratação de serviços de transporte e logística?
AV - A sustentabilidade já influencia decisões de contratação, sobretudo nas grandes empresas e nas organizações com objetivos ambientais e sociais formalmente definidos. Os clientes querem conhecer não apenas o preço e o prazo de entrega, mas também o impacto da operação, as iniciativas de redução de emissões e a qualidade das práticas de governance dos seus parceiros. Esta mudança de paradigma irá acelerar. À medida que as empresas aprofundam a medição das emissões associadas às suas cadeias de valor, o desempenho ambiental dos fornecedores logísticos passa a ter impacto direto nos seus próprios indicadores. Temos vindo a reforçar a rede de Pontos Correos, a descarbonizar a nossa frota de distribuição e a desenvolver iniciativas de economia circular.